Uma pesquisa publicada na Nature Cancer avaliou se a L-glutamina poderia complementar a quimioterapia usada contra o câncer de pâncreas avançado. Os resultados foram promissores, apesar de se tratar de um estudo pequeno e ainda inicial.
O câncer de pâncreas está entre os tumores mais difíceis de tratar, especialmente quando a doença já se espalhou para outros órgãos. Além do próprio câncer, muitos pacientes enfrentam perda de peso, dificuldades para digerir e absorver nutrientes e alterações no funcionamento do intestino durante a evolução da doença e o tratamento.
Pensando nisso, um grupo de pesquisadores testou o efeito da glutamina em associação à quimioterapia em 16 pacientes com câncer de pâncreas avançado. O objetivo foi avaliar os potenciais benefícios da combinação, tanto sobre o tumor quanto sobre a saúde intestinal, a absorção de nutrientes e a inflamação.
Os resultados positivos, no entanto, não significam que a suplementação de glutamina seja indicada como tratamento. Eles mostram que a combinação apresentou resultados suficientemente promissores para justificar estudos maiores e mais rigorosos.
As funções da glutamina no organismo
A glutamina é um aminoácido produzido pelo organismo e também obtido pela alimentação. No intestino, ela serve como fonte de energia para as células do revestimento intestinal e participa da renovação desse tecido.
Ela também ajuda a manter a barreira intestinal, controlando a passagem de substâncias do interior do intestino para o sangue. Além disso, pode ajudar essas células a resistir a situações de estresse e limitar processos inflamatórios.
Em situações de estresse metabólico intenso, a quantidade de glutamina disponível no organismo pode diminuir. Por esse motivo, sua suplementação já foi estudada em diferentes condições associadas a inflamação e alterações da função intestinal.
No câncer de pâncreas, essas funções são relevantes porque a doença pode causar alterações digestivas, dificuldade para absorver nutrientes e perda de peso.
Glutamina pode ajudar no tratamento do câncer de pâncreas?
Quando o câncer de pâncreas está avançado, ele é extremamente difícil de tratar. No estudo da ature, se considerou "avançado" casos nos quais o tumor já se espalhou para outras partes do corpo ou não podia mais ser removido por cirurgia.
Nessa fase, o tratamento normalmente busca controlar a doença e prolongar a vida, mas as opções disponíveis ainda têm eficácia limitada.
A pesquisa publicada na Nature Cancer avaliou se a L-glutamina poderia ser acrescentada à quimioterapia para tentar melhorar esses resultados. Participaram 16 pacientes com câncer de pâncreas avançado, que receberam glutamina junto com gemcitabina e nab-paclitaxel.
Durante o acompanhamento, metade dos pacientes permaneceu pelo menos 8,5 meses sem que o câncer apresentasse crescimento ou avanço. Em relação à sobrevida, metade viveu mais de 22 meses após o início do tratamento.
Pode parecer que os resultados não foram tão bons, mas, se tratando de um câncer agressivo, são resultados promissores.
No entanto, esses números não permitem dizer que a glutamina foi responsável pela resposta observada. Todos os participantes receberam a suplementação junto com a quimioterapia, e não houve um grupo recebendo apenas gemcitabina e nab-paclitaxel para comparação.
Efeitos na inflamação sistêmica
A inflamação sistêmica é uma resposta inflamatória que afeta o organismo como um todo, e não apenas um tecido ou órgão específico. No câncer, ela pode estar relacionada tanto à própria doença e às alterações provocadas pelo tumor, quanto aos efeitos do tratamento.
No estudo, os pacientes que responderam ao tratamento apresentaram níveis menores de CCL11 e IL-33, duas moléculas envolvidas na resposta inflamatória.
A redução desses marcadores sugere uma menor ativação de determinados processos inflamatórios entre os pacientes que tiveram resposta ao tratamento.
Má absorção e caquexia
O câncer de pâncreas pode dificultar a digestão e a absorção de nutrientes, contribuindo para a perda de peso e para a caquexia.
Essa síndrome (a caquexia) envolve uma perda progressiva de peso e massa muscular que não é explicada apenas pela redução da alimentação e que pode ser difícil de reverter.
Como consequência, mesmo quando a pessoa consegue se alimentar, o organismo pode não aproveitar adequadamente proteínas, gorduras, vitaminas e outros nutrientes. Isso pode contribuir para perda de peso, fraqueza e deficiência nutricional.
A maioria dos participantes do estudo já apresentava sinais de caquexia no início da pesquisa. Durante o tratamento, porém, cerca de metade conseguiu manter o peso corporal, um resultado que os pesquisadores consideraram compatível com um possível efeito contra a perda de peso associada à doença.
Esses resultados sugerem que os possíveis efeitos da glutamina não estariam relacionados apenas ao tumor, mas também à capacidade do organismo de manter o estado nutricional durante o tratamento.
O que os resultados significam?
Os resultados da pesquisa são promissores, mas ainda não são suficientes para afirmar que a glutamina melhora o tratamento do câncer de pâncreas. O estudo envolveu apenas 16 pacientes e não comparou a combinação com a quimioterapia isoladamente.
Isso significa que não é possível saber quanto dos resultados observados se deve à glutamina e quanto pode ser explicado pela própria quimioterapia ou pelas características dos pacientes avaliados.
Por enquanto, a pesquisa mostra que a combinação merece ser estudada em grupos maiores e com um grupo de comparação. Somente estudos desse tipo poderão determinar se a glutamina realmente acrescenta algum benefício ao tratamento convencional do câncer de pâncreas avançado.
Referências ▼
- Nature Cancer – l-Glutamine in combination with first-line gemcitabine and nab-paclitaxel in advanced pancreatic ductal adenocarcinoma: an open-label, single-arm, phase 1 GlutaPanc trial
- International journal of molecular sciences – The Roles of Glutamine in the Intestine and Its Implication in Intestinal Diseases
- Amino acids – A systematic review and meta-analysis of clinical trials on the effects of glutamine supplementation on gut permeability in adults

