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Doença de Creutzfeldt-Jakob: sintomas, tipos e evolução de uma doença rara e fatal

Neste artigo

    A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma doença neurológica rara que provoca uma degeneração progressiva do cérebro. Ela pertence ao grupo das doenças priônicas, que envolvem uma alteração anormal na estrutura de uma proteína presente naturalmente no organismo.

    A DCJ chama atenção pela velocidade com que pode comprometer o funcionamento do cérebro. Os primeiros sinais podem ser discretos, mas a deterioração neurológica tende a avançar rapidamente, afetando diferentes funções à medida que a doença progride.

    Embora seja uma condição pouco frequente, a DCJ tem importância particular na neurologia por seu mecanismo incomum e pela rapidez de sua evolução.

    Veja também: Sistema glinfático: como o cérebro elimina toxinas durante o sono?

    A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma doença neurológica rara que provoca uma degeneração progressiva do cérebro.

    O que causa a doença de Creutzfeldt-Jakob?

    Existe uma proteína comum na superfície de várias células do corpo, a proteína priônica celular (PrPc). Os príons são formas anormais dessa proteína e estão associados às doenças priônicas.

    Essas proteínas com formato anormal podem fazer com que a PrPc, em sua forma normal, também mude de conformação e se transforme em uma forma anormal. Esse processo pode se repetir, levando ao acúmulo progressivo de proteínas alteradas no tecido cerebral. 

    É por isso que os príons conseguem se multiplicar sem possuir DNA ou RNA: eles usam a própria proteína normal do organismo como substrato para gerar novas proteínas anormais.

    Com o acúmulo dessas proteínas no cérebro, os neurônios são progressivamente danificados e morrem. O resultado é uma degeneração cerebral que compromete funções cognitivas, motoras e comportamentais.

    Sintomas iniciais da doença de Creutzfeldt-Jakob

    Os primeiros sintomas da doença de Creutzfeldt-Jakob podem ser diferentes de uma pessoa para outra, mas no geral, ela é descrita como uma demência de evolução rápida.

    Assim, alterações de memória, concentração e comportamento podem aparecer ao lado de problemas de equilíbrio, coordenação ou visão. Como essas manifestações também estão presentes em diversas outras condições, pode haver certa dificuldade diagnóstica no início do quadro.

    A suspeita de DCJ costuma surgir principalmente quando os sintomas evoluem de forma rápida.

    Entre as manifestações que podem aparecer no início estão:

    • Perda de memória, especialmente recente

    • Dificuldade para se concentrar ou organizar o pensamento

    • Confusão mental

    • Mudanças de comportamento ou personalidade

    • Ansiedade, depressão e outras alterações de humor

    • Alterações visuais

    • Dificuldade para coordenar os movimentos

    • Desequilíbrio e dificuldade para caminhar

    • Tremores ou movimentos involuntários

    A progressão acelerada é uma das características que diferenciam a DCJ de muitas outras causas de demência. A deterioração cognitiva e neurológica pode se tornar importante em poucos meses, enquanto outras doenças neurodegenerativas costumam apresentar uma evolução mais lenta.

    Como a doença evolui?

    À medida que a degeneração cerebral avança, os sintomas se tornam mais numerosos e incapacitantes. A perda de memória e outras alterações cognitivas podem evoluir para uma demência grave, enquanto os problemas de coordenação e movimento dificultam cada vez mais a locomoção e a realização de tarefas simples.

    Nesse estágio, podem surgir:

    • Rigidez muscular

    • Espasmos musculares involuntários, chamados mioclonias

    • Dificuldade para falar

    • Dificuldade para engolir

    • Convulsões

    • Perda da capacidade de caminhar

    • Incapacidade de realizar atividades básicas sem ajuda

    A capacidade de reconhecer pessoas, compreender o que acontece ao redor e se comunicar também pode ser comprometida. Conforme o quadro avança, muitos pacientes permanecem acamados e precisam de cuidados contínuos. Nos estágios finais, podem perder a consciência e entrar em estado de coma.

    Tipos da doença de Creutzfeldt-Jakob

    A doença de Creutzfeldt-Jakob pode surgir por mecanismos diferentes. A maioria dos casos é esporádica, enquanto uma parcela menor está relacionada a alterações genéticas ou a exposições médicas muito específicas ou ao agente causador da encefalopatia espongiforme bovina.

    Forma esporádica

    A DCJ esporádica é responsável pela maior parte dos casos, correspondendo a cerca de 85% deles. Não há uma causa conhecida ou uma exposição identificável que explique o surgimento da doença, e a pessoa geralmente não apresenta histórico familiar de doença priônica.

    A forma esporádica ocorre principalmente em pessoas mais velhas, com maior frequência a partir dos 60 anos.

    Forma genética

    Uma parcela menor das doenças priônicas está relacionada a mutações no gene PRNP, responsável pela produção da proteína priônica celular. Essas alterações podem ser herdadas e aumentar o risco de desenvolvimento de uma doença priônica ao longo da vida.

    Algumas mutações do PRNP estão associadas à DCJ familiar, enquanto outras causam doenças priônicas diferentes, como a síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker e a insônia familiar fatal. Por isso, as formas genéticas das doenças priônicas abrangem mais condições do que apenas a DCJ hereditária.

    Quando existe suspeita de uma forma genética, a história familiar e o aconselhamento genético podem ajudar na investigação. A ausência de casos conhecidos na família, porém, não é suficiente para descartar uma alteração genética.

    Forma iatrogênica

    A DCJ iatrogênica é extremamente rara e está relacionada à transmissão do príon durante determinadas intervenções médicas. Já foram registrados casos associados ao uso de hormônio do crescimento humano obtido de hipófises de doadores, transplantes de determinados tecidos e, em circunstâncias muito específicas, instrumentos cirúrgicos contaminados.

    A resistência dos príons a métodos convencionais de descontaminação levou à adoção de protocolos específicos para materiais que entram em contato com tecidos de pacientes com suspeita ou confirmação de doença priônica. Atualmente, a forma iatrogênica é excepcional.

    Variante da doença de Creutzfeldt-Jakob

    A variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (vDCJ) foi identificada no Reino Unido na década de 1990, durante o surto de encefalopatia espongiforme bovina, conhecida como doença da vaca louca. A evidência epidemiológica e laboratorial estabeleceu uma relação entre a exposição ao agente da doença bovina e o desenvolvimento da vDCJ em seres humanos.

    A variante também apresenta diferenças em relação à DCJ esporádica. Ela tende a afetar pessoas mais jovens e pode começar com alterações psiquiátricas ou comportamentais, como depressão, ansiedade e isolamento social. Sintomas neurológicos aparecem posteriormente, incluindo problemas de coordenação, movimentos involuntários e demência.

    A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma doença neurológica rara que provoca uma degeneração progressiva do cérebro.

    A doença de Creutzfeldt-Jakob é contagiosa?

    A doença de Creutzfeldt-Jakob não é transmitida pelo contato cotidiano. Conviver com uma pessoa doente, abraçá-la, beijá-la ou compartilhar objetos domésticos não representa uma forma conhecida de transmissão.

    Os casos de transmissão entre seres humanos são extremamente raros e estão relacionados a circunstâncias específicas, principalmente algumas intervenções médicas envolvendo tecidos ou materiais contaminados. Por isso, existem protocolos próprios para o manejo de instrumentos e tecidos quando há suspeita de uma doença priônica.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico pode ser difícil no início porque os sintomas da DCJ também aparecem em outras doenças. Uma demência que progride rapidamente, por exemplo, pode ter diferentes causas, e algumas delas são potencialmente tratáveis. Por isso, a investigação não procura apenas confirmar a presença de uma doença priônica, mas também descartar outras possibilidades.

    A avaliação costuma combinar o exame neurológico com diferentes exames:

    • Ressonância magnética do cérebro, que pode mostrar alterações características da DCJ

    • Eletroencefalograma (EEG), que pode identificar padrões associados à doença

    • Análise do líquido cefalorraquidiano, incluindo testes para proteínas relacionadas à doença

    • RT-QuIC, exame que detecta a presença de atividade priônica em amostras biológicas

    • Teste genético, quando há suspeita de uma forma hereditária

    O RT-QuIC representou um avanço importante porque permite aumentar bastante a segurança do diagnóstico durante a vida do paciente. Ainda assim, nenhum exame isolado deve ser interpretado fora do contexto clínico.

    A confirmação neuropatológica continua sendo o padrão definitivo para demonstrar a doença, por meio da análise do tecido cerebral. Na prática, porém, muitos pacientes podem receber um diagnóstico de DCJ provável durante a vida com base na combinação dos sintomas, exames de imagem e biomarcadores.

    Existe tratamento ou cura?

    Ainda não existe cura para a doença de Creutzfeldt-Jakob, nem tratamento capaz de interromper ou reverter a degeneração cerebral causada pela doença. Diferentes substâncias e estratégias já foram estudadas, mas nenhuma demonstrou eficácia suficiente para modificar de forma comprovada a evolução da DCJ.

    O tratamento disponível é direcionado aos sintomas e aos cuidados necessários conforme a doença avança. Medicamentos podem ser utilizados para algumas manifestações, enquanto fisioterapia e fonoaudiologia podem ajudar a lidar com as limitações motoras e os problemas de fala e deglutição.

    A alimentação também pode exigir acompanhamento quando o paciente apresenta dificuldade para engolir. Nos estágios mais avançados, os cuidados paliativos passam a ter um papel importante, ajudando a controlar sintomas e desconfortos e a orientar a família diante da perda progressiva de autonomia.

    Referências ▼

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