Por muito tempo, os cientistas acreditaram que o cérebro não possuía um sistema próprio para eliminar toxinas, apesar de ser um órgão extremamente ativo e sensível a desequilíbrios químicos.
Com o avanço das pesquisas, no entanto, ficou claro que existe um mecanismo específico responsável por essa limpeza: o sistema glinfático.
Ele atua removendo substâncias acumuladas ao longo do dia que podem ser prejudiciais aos neurônios. Esse trabalho é mais intenso durante o sono, especialmente no sono profundo, quando o cérebro entra em um estado que favorece a circulação de líquidos e a eliminação de resíduos.
Isso ajuda a explicar por que a qualidade do sono afeta diretamente a saúde cerebral.
Função do sistema glinfático
O sistema glinfático funciona de maneira semelhante ao sistema linfático, ou seja, ele transporta resíduos que o cérebro não precisa, incluindo restos metabólicos que podem ser prejudiciais se permanecerem por muito tempo em contato com os neurônios.
É como um sistema de limpeza que remove e elimina substâncias potencialmente tóxicas.
Além disso, ele também transporta substâncias úteis para diferentes partes do cérebro, como açúcar, gorduras, aminoácidos e neurotransmissores.
Dois tipos de líquidos fazem parte desse sistema e participam da limpeza e do transporte de substâncias:
Líquido cefalorraquidiano, que recobre e protege o cérebro e a medula espinhal
Líquido intersticial, que circula entre as células
Esses dois líquidos têm contato um com o outro e circulam entre as diferentes partes do sistema nervoso. Assim, eles removem as substâncias nocivas e as levam até o sistema linfático através dos vasos do pescoço.
Em seguida, o líquido, ou linfa, passa pelos gânglios linfáticos. As células de defesa presentes nos gânglios destroem vírus, bactérias e células anormais, e então a linfa pode ser eliminada pelos rins e fígado.
Quando o sistema glinfático trabalha?
De modo geral, o sistema glinfático trabalha o tempo todo. No entanto, é durante o sono profundo que ele consegue realizar a maior parte da limpeza no cérebro.
Nesse momento, o espaço entre as células aumenta, permitindo que o líquido intersticial circule com mais facilidade e que a remoção de partículas seja mais eficiente.
Durante o sono profundo, há também pequenas oscilações na liberação de noradrenalina, fazendo com que os vasos se dilatem e se contraiam de maneira rítmica e suave. Isso permite que o líquido intersticial e cefalorraquidiano se movimentem com mais agilidade para retirar e transportar substâncias.
Problemas no funcionamento do sistema glinfático
O cérebro é um órgão delicado que precisa manter o equilíbrio entre uma série de substâncias para funcionar bem.
Quando o sistema de limpeza cerebral não funciona corretamente, esse equilíbrio é afetado e podem ocorrer problemas.
Alguns estudos mostram que o mau funcionamento do sistema glinfático pode estar ligado a doenças como Alzheimer, alguns tipos de epilepsia e Parkinson.
Além disso, o declínio da memória que costuma acontecer com o envelhecimento também está conectado a problemas nesse sistema.
Remédios para dormir e o sono profundo
O uso de medicamentos para induzir o sono, como benzodiazepínicos ou outros sedativos, pode afetar o funcionamento do sistema glinfático.
Embora esses remédios ajudem a pessoa a adormecer mais rapidamente e a dormir por mais horas, eles podem interferir na arquitetura do sono, principalmente reduzindo a quantidade de sono profundo, que é uma fase crucial para a limpeza cerebral.
Um exemplo é o zolpidem, que afeta a liberação de noradrenalina durante o sono, prejudicando o processo de limpeza e aumentando o risco de acúmulo de substâncias nocivas no cérebro.
Já os benzodiazepínicos, como o clonazepam e o alprazolam, reduzem a duração do sono profundo, prejudicando o funcionamento do sistema de limpeza neuronal.
Portanto, embora os medicamentos para dormir sejam úteis em situações pontuais, o uso frequente pode afetar negativamente a função do sistema glinfático e, por consequência, a saúde cerebral a longo prazo.
A importância de novos estudos sobre o sistema glinfático
Apesar dos avanços na compreensão do sistema glinfático, ainda há muito a ser descoberto sobre seu funcionamento. Entender como ele opera, quais são os fatores que influenciam sua eficácia e como ele se comporta em diferentes condições de saúde é fundamental para a medicina atual.
Novas pesquisas podem nos ajudar a aprimorar o desempenho desse sistema, bem como a compreender seu papel na prevenção e no tratamento de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, e a promover a saúde cerebral a longo prazo.
Por fim, o uso crescente de medicamentos para tratar distúrbios do sono e ansiedade é motivo de preocupação. Muitos desses medicamentos interferem no sono profundo, o que prejudica a remoção de toxinas e resíduos metabólicos do cérebro.
Investigar os efeitos desse uso prolongado é fundamental para compreender os riscos associados e desenvolver alternativas terapêuticas que não comprometam a saúde cerebral.
Dúvidas comuns sobre o tema
O sistema glinfático é responsável por remover toxinas e restos metabólicos do céreb, especialmente no sono profundo. Ele utiliza o líquido cefalorraquidiano e intersticial para limpar resíduos acumulados e transportar essas substâncias para o sistema linfático, garantindo a saúde cerebral.
O sistema glinfático é responsável por remover toxinas do cérebro através da circulação de líquidos, como o líquido cefalorraquidiano. Esse processo ocorre principalmente durante o sono profundo.
Sim, medicamentos como benzodiazepínicos e zolpidem interferem no sono profundo, prejudicando o funcionamento do sistema glinfático e aumentando o risco de acúmulo de toxinas no cérebro.
Referências ▼
- Molecular Psychiatry – Effects of sleep on the glymphatic functioning and multimodal human brain network affecting memory in older adults
- Frontiers in Neurology – Glymphatic system in neurological disorders and implications for brain health
- Molecular Psychiatry – Noradrenergic modulation of glymphatic clearance: implications for neuropsychiatric disorders and mortality

