Uma das queixas mais frequentes de quem começa a usar um medicamento psiquiátrico é a sensação de não se reconhecer.
"Não me sinto eu mesmo", "parece que estou anestesiado", "perdi o brilho que tinha antes."
Essas frases chegam aos consultórios com uma frequência que merece atenção, porque por trás delas existe uma dúvida legítima e muitas vezes angustiante: o remédio está me ajudando ou está me apagando?
Efeitos colaterais que afetam mais do que o corpo
É importante começar pelo mais óbvio: medicamentos psiquiátricos têm efeitos colaterais, e alguns deles mexem diretamente com a forma como nos sentimos e nos comportamos. Alguns exemplos são:
Sonolência excessiva
Lentidão para pensar
Mudanças no desejo sexual
Embotamento emocional
Esses são efeitos documentados de diversas classes de medicamentos, dos antidepressivos aos estabilizadores de humor, e costumam ser mais comuns no início do tratamento.
O problema é que esses efeitos são frequentemente confundidos com "a personalidade que sobrou depois do remédio", quando na verdade são reações temporárias ou ajustáveis ao próprio tratamento.
Por exemplo, um antidepressivo que deixa a pessoa apática nas primeiras semanas não é necessariamente o antidepressivo certo para ela. A dose pode estar alta demais, o horário de tomar pode estar errado, ou pode ser necessário trocar por outro medicamento da mesma classe, ou de outra.
Isso não significa que o médico errou ao prescrevê-lo, mas sim que o processo de encontrar o tratamento ideal raramente é linear. Cada organismo responde de forma diferente, e o acompanhamento próximo existe justamente para fazer esses ajustes.
Amenizando os sintomas sem perder a essência
Existe uma linha tênue, e às vezes difícil de perceber, entre o medicamento agindo como deveria e o medicamento exagerando na dose. Quando um antidepressivo funciona bem, a pessoa começa a conseguir fazer coisas que antes o transtorno impedia:
Sair da cama
Cuidar de si mesma
Retomar relacionamentos
Sentir alegria em momentos que merecem alegria
Interagir com familiares e amigos
Ela não vira outra pessoa. Ela volta a ser ela mesma.
O mesmo vale para medicamentos que tratam ansiedade, bipolaridade, esquizofrenia ou TDAH. O objetivo não é neutralizar a personalidade, mas sim reduzir o sofrimento que impede a pessoa de viver.
No entanto, é preciso ter atenção quando quando a criatividade e o senso de humor são afetados, ou quando surgem sintomas mais atípicos, como:
Impulsividade
Sensação de desconexão com o próprio corpo
Confusão mental
Agressividade
Irritabilidade
Nesses casos, o tratamento precisa ser avaliado.
Reconhecer a verdadeira personalidade
Aqui mora uma das questões mais complexas de todo esse processo. Para muitas pessoas, os sintomas do transtorno foram tão presentes e tão duradouros que se tornaram indistinguíveis de quem elas são.
A hiperatividade que parecia "do meu jeito de ser"
A tristeza profunda que era "minha personalidade melancólica"
A ansiedade que "sempre foi assim comigo"
Quando o medicamento reduz esses sintomas, a sensação pode ser estranha, ou até assustadora.
Esse processo de reconhecimento leva tempo e, quase sempre, se beneficia de acompanhamento psicoterápico junto ao tratamento medicamentoso. Conversar sobre essas mudanças com um psicólogo ajuda a entender o que é adaptação saudável, o que é efeito colateral indesejado e o que é simplesmente a novidade de se sentir bem.
Quando é hora de conversar com o médico?
Sempre. O acompanhamento de qualquer tratamento psiquiátrico (ou de qualquer outro tipo, na verdade) é tão importante quanto o remédio em si. Mas alguns sinais tornam essa conversa urgente.
Se você sente que perdeu o acesso às suas emoções, que está "em piloto automático", que o prazer sumiu de coisas que antes importavam, que sua capacidade criativa ou intelectual diminuiu de forma notável, ou que você simplesmente não se reconhece mais, esse é o momento de falar abertamente com quem te acompanha.
O médico precisa saber exatamente como você está se sentindo para fazer os ajustes necessários, seja na dose, no horário ou na combinação de medicamentos. Há muitas variáveis que podem ser modificadas, e mesmo quando esses ajustes não funcionam, é possível trocar de medicamento.
Uma regra prática útil: se antes do diagnóstico e do tratamento você conseguia lembrar de uma versão de si mesmo que gostava, e essa versão sumiu com o medicamento, isso merece investigação.
Mas, mesmo se você não consegue lembrar dessa versão por causa da duração dos sintomas, é possível ajustar o tratamento.
Referências ▼
- Discoveries – Depersonalization-Derealization Disorder: Etiological Mechanism, Diagnosis and Management
- Dialogues in clinical neuroscience – Impact of perceived side-effects of psychotropic treatments on quality of life in patients with severe mental illness
- Health expectations – Side Effects of Psychotropic Medications Experienced by a Community Sample of People Living With Severe and Persistent Mental Illness
