Uma doença rara e que vem chamando cada vez mais a atenção. A síndrome da ativação mastocitária (SAM) é caracterizada pela ativação exagerada dos mastócitos, um tipo de célula do sistema imunológico.
É também um diagnóstico relativamente novo. Os critérios para definir a síndrome começaram a ser estabelecidos na década de 2010 e, por isso, ainda existem muitas incertezas sobre a doença. Também há uma preocupação crescente com o diagnóstico excessivo de SAM em pessoas que apresentam sintomas inespecíficos.
O que são mastócitos?
Mastócitos são células imunológicas encontradas principalmente nos tecidos, especialmente na pele, no sistema respiratório e no trato gastrointestinal. Eles participam da defesa do organismo e das reações inflamatórias.
Essas células também estão envolvidas nas reações alérgicas. Quando são ativadas, liberam diversas substâncias, chamadas mediadores, que produzem efeitos em diferentes partes do organismo.
Uma dessas substâncias é a histamina, responsável por muitos dos sintomas conhecidos das alergias, como coceira, vermelhidão, inchaço e secreção nasal. Os mastócitos também liberam outras substâncias, como triptase, prostaglandinas e leucotrienos.
Em uma pessoa com SAM, os mastócitos podem ser ativados de maneira inadequada e liberar esses mediadores em episódios que afetam diferentes órgãos.
Principais sintomas
Os sintomas da síndrome da ativação mastocitária aparecem em episódios e podem se parecer muito com crises alérgicas, incluindo casos de anafilaxia.
Para que o quadro seja considerado compatível com SAM, os sintomas precisam ser recorrentes e envolver pelo menos dois sistemas do organismo durante os episódios.
Entre as manifestações mais comuns estão:
Cardiovascular, incluindo queda da pressão arterial, taquicardia, tontura e desmaio
Respiratório, com dificuldade para respirar, chiado no peito e sensação de aperto no peito
Pele, com vermelhidão, urticária, coceira e inchaço
Gastrointestinal, incluindo dor ou cólicas abdominais, náuseas, vômitos e diarreia
Naso-ocular, com congestão nasal, coceira e vermelhidão nos olhos
Os sintomas desaparecem entre as crises e podem variar bastante de intensidade. Em alguns casos, a ativação generalizada dos mastócitos pode provocar anafilaxia, uma reação grave que pode causar dificuldade para respirar, queda importante da pressão arterial e perda de consciência.
Além de saber identificar quais são os sintomas característicos do problema, é igualmente importante reconhecer aqueles que não são suficientes para estabelecer o diagnóstico.
Nas redes sociais, é comum encontrar listas muito extensas de sintomas atribuídos à síndrome. Entre eles estão:
Névoa mental
Indigestão, sensação de estufamento e mal-estar gástrico
Dor nas articulações e musculares
Ansiedade e mudanças de humor
Intolerâncias alimentares
Esses sintomas podem aparecer em muitas outras condições e, isoladamente, não indicam SAM.
Isso é especialmente importante quando os sintomas são crônicos. A síndrome da ativação mastocitária costuma provocar episódios de ativação dos mastócitos, e não simplesmente uma coleção permanente de sintomas vagos.
Isso não significa que sintomas como dor, problemas digestivos ou dificuldade de concentração não sejam reais ou não precisem ser investigados. Significa apenas que atribuí-los automaticamente à SAM pode fazer com que outras causas sejam ignoradas.
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Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da síndrome da ativação mastocitária pode ser difícil porque os sintomas se parecem com os de várias outras condições. Além disso, não existe um único exame capaz de confirmar a doença.
Os critérios consensuais mais utilizados consideram três aspectos principais:
Episódios repetidos de sintomas compatíveis com ativação dos mastócitos, afetando pelo menos dois sistemas do organismo
Evidência laboratorial de que os mastócitos foram ativados durante uma dessas crises
Melhora dos sintomas com medicamentos que bloqueiam os efeitos das substâncias liberadas pelos mastócitos
Um dos exames mais importantes é a dosagem de triptase, uma substância liberada pelos mastócitos. O exame deve ser feito durante ou logo após uma crise e comparado com uma segunda dosagem realizada quando a pessoa está sem sintomas.
O que os médicos procuram não é simplesmente uma triptase acima do valor considerado normal. O mais importante é verificar se houve um aumento significativo em relação ao nível habitual daquela pessoa. Pelos critérios atualmente utilizados, esse aumento deve ser de pelo menos 20% em relação ao valor basal, acrescido de 2 ng/mL.
Esse resultado, porém, não é suficiente para diagnosticar a síndrome sozinho. Ele precisa ser interpretado junto com os sintomas apresentados durante as crises e com a resposta ao tratamento.
Outros exames também podem ser utilizados, principalmente quando a dosagem de triptase não esclarece o caso. Entre eles estão exames de urina capazes de detectar substâncias produzidas pelos mastócitos.
Causas da ativação mastocitária
A síndrome da ativação mastocitária não é uma única doença com uma única causa.
Existem diferentes formas da síndrome. Na chamada SAM primária, existe uma alteração relacionada aos próprios mastócitos, como acontece em algumas doenças clonais dessas células.
Na SAM secundária, os mastócitos são ativados por outra condição. Reações alérgicas são um exemplo, embora existam outras possíveis causas.
Também existe a SAM idiopática, quando não é identificada uma doença subjacente ou uma alteração clonal dos mastócitos.
Essa classificação é importante porque a presença de sintomas relacionados à ativação mastocitária não significa necessariamente que a pessoa tenha SAM idiopática. Uma pessoa com uma alergia, por exemplo, pode apresentar uma forte ativação dos mastócitos sem ter a síndrome.
Também existem pessoas com níveis naturalmente mais altos de triptase no sangue por causa de uma condição genética chamada alfa-triptasemia hereditária. Essa alteração pode estar associada a sintomas relacionados aos mastócitos e precisa ser diferenciada de outras doenças.
Consequências do problema
A consequência mais grave da ativação generalizada dos mastócitos é a anafilaxia.
Durante uma reação desse tipo, a liberação de grandes quantidades de mediadores pode provocar dificuldade para respirar, queda da pressão arterial, alterações cardiovasculares e perda de consciência. A anafilaxia é uma emergência médica e precisa ser tratada rapidamente.
Nem todas as pessoas com SAM, entretanto, apresentam reações tão graves. A intensidade dos episódios pode variar bastante.
As crises recorrentes também podem afetar a qualidade de vida. O medo de uma nova reação pode levar algumas pessoas a evitar determinados alimentos, medicamentos ou situações.
Por isso, identificar os verdadeiros desencadeadores das crises é importante. Restringir cada vez mais a alimentação ou evitar medicamentos sem uma relação comprovada com os sintomas pode trazer problemas adicionais sem necessariamente prevenir novas crises.
Tratamentos disponíveis
O tratamento depende da causa da ativação mastocitária e dos sintomas apresentados. Não existe um único medicamento capaz de tratar todos os casos.
Uma das principais estratégias é bloquear os efeitos das substâncias liberadas pelos mastócitos. Anti-histamínicos, por exemplo, podem ser utilizados para controlar sintomas provocados pela histamina.
Dependendo do caso, também podem ser utilizados medicamentos que atuam sobre outros mediadores dos mastócitos, como os leucotrienos, ou medicamentos que reduzem a liberação dessas substâncias.
Quando existe uma doença responsável pela ativação dos mastócitos, o tratamento também deve ser direcionado para essa condição.
Em alguns casos mais difíceis de controlar, medicamentos como o omalizumabe podem ser considerados por especialistas. Entretanto, as evidências para seu uso especificamente na SAM ainda são limitadas e não são equivalentes às evidências existentes para as doenças nas quais o medicamento possui indicações estabelecidas.
Nos casos de anafilaxia, o tratamento é diferente. A epinefrina é o tratamento de primeira linha e deve ser administrada imediatamente quando uma reação grave ocorre.
SAM é o mesmo que alergia?
Não.
A alergia é uma resposta do sistema imunológico contra uma substância que normalmente não deveria provocar uma reação desse tipo. Em muitas alergias, a imunoglobulina E, ou IgE, participa da ativação dos mastócitos.
Na síndrome da ativação mastocitária, os mastócitos podem ser ativados por diferentes mecanismos. A síndrome pode estar relacionada a uma doença dos próprios mastócitos, a outra condição ou não ter uma causa identificada.
Por isso, uma pessoa pode ter uma alergia e apresentar ativação dos mastócitos sem ter SAM.
Da mesma forma, uma pessoa com SAM pode apresentar ativação mastocitária sem que exista uma alergia clássica mediada por IgE.
Síndrome de ativação mastocitária e COVID
A relação entre os mastócitos e a COVID-19 despertou interesse durante a pandemia. Essas células participam de processos inflamatórios e imunológicos e, por isso, alguns pesquisadores levantaram a hipótese de que sua ativação pudesse estar envolvida em parte dos sintomas provocados pela infecção pelo SARS-CoV-2.
A hipótese também foi investigada em pessoas com COVID longa. Alguns estudos encontraram sinais compatíveis com ativação mastocitária em pessoas que continuaram apresentando sintomas depois da infecção.
Isso, porém, não significa que a COVID-19 cause síndrome da ativação mastocitária.
A possibilidade de que a ativação dos mastócitos participe dos mecanismos da COVID longa continua sendo estudada, mas as evidências disponíveis ainda não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito.
Por isso, uma pessoa que desenvolveu sintomas persistentes depois da COVID-19 não deve presumir que tenha SAM. Os sintomas precisam ser avaliados individualmente e outras possíveis causas devem ser investigadas.
Referências ▼
- International archives of allergy and immunology – Why the 20% + 2 Tryptase Formula Is a Diagnostic Gold Standard for Severe Systemic Mast Cell Activation and Mast Cell Activation Syndrome
- The Journal of allergy and clinical immunology – Mast cell activation syndrome: Importance of consensus criteria and call for research
- World journal of clinical pediatrics – Mast cell activation syndrome: An up-to-date review of literature

