Nos últimos anos, o óleo de coco passou de ingrediente culinário comum a símbolo de saúde e bem-estar. Ele foi promovido como capaz de melhorar o colesterol, proteger o coração, ajudar no emagrecimento, fortalecer a imunidade e até prevenir doenças como o Alzheimer.
O problema é que essas afirmações não têm respaldo científico sólido, são em grande parte exageros e extrapolações de estudos feitos com células e animais.
O consumo frequente do óleo de coco se popularizou muito mais por marketing e desinformação do que por evidências confiáveis. Quando analisado com critérios científicos, o cenário é bem diferente do que costuma circular nas redes sociais.
O que é o óleo de coco?
O óleo de coco é uma gordura vegetal extraída da polpa do coco e tem uma característica que o diferencia da maioria dos óleos vegetais:
Cerca de 80 a 90% da sua composição é formada por gorduras saturadas, um valor muito superior ao encontrado em óleos como o de oliva, canola ou girassol.
Embora parte dessas gorduras seja composta por triglicerídeos de cadeia média, que são metabolizados de forma um pouco diferente no organismo, isso não significa que o óleo de coco deixe de ser uma gordura saturada altamente calórica.
Devido a sua composição, ele é potencialmente prejudicial quando consumido em excesso, especialmente por pessoas que já apresentam fatores de risco cardiovascular.
No entanto, mesmo com essa composição, inúmeros mitos foram difundidos ao longo dos anos sobre o óleo de coco, criando uma aura de superalimento que, de forma direta, não existe,
Mito 1: óleo de coco melhora o colesterol
Um dos “benefícios” mais difundidos é o de que o óleo de coco melhora o perfil lipídico, aumentando o colesterol HDL e, por isso, seria benéfico para a saúde do coração.
De fato, alguns estudos mostram um discreto aumento do HDL, mas esse efeito costuma vir acompanhado de um aumento significativo do LDL, conhecido como colesterol ruim, que está diretamente associado ao maior risco de infarto, AVC e outras doenças cardiovasculares.
Na prática clínica e nas recomendações das principais sociedades médicas, o que importa não é apenas elevar o HDL, mas principalmente manter o LDL em níveis adequados.
Em outras palavras, o consumo frequente de óleo de coco pode piorar o perfil lipídico, especialmente quando comparado a gorduras insaturadas como o azeite de oliva.
Mito 2: óleo de coco faz bem para o coração
A ideia de que o óleo de coco protege o coração é uma extensão direta do mito do colesterol, mas não encontra respaldo nas diretrizes de cardiologia.
Organizações como a American Heart Association alertam que o consumo elevado de gorduras saturadas está associado ao aumento do risco cardiovascular, e o óleo de coco está entre as fontes mais concentradas desse tipo de gordura.
Ou seja, trocar manteiga por óleo de coco não transforma automaticamente a alimentação em algo saudável.
Além disso, substituir os óleos ricos em gorduras insaturadas (como azeite de oliva e outros óleos vegetais) por óleo de coco pode, na verdade, piorar o perfil de risco cardíaco ao longo do tempo.
Mito 3: óleo de coco previne ou trata Alzheimer
Talvez um dos mitos mais perigosos seja a associação entre óleo de coco e prevenção ou tratamento da doença de Alzheimer, muitas vezes baseada na hipótese de que os triglicerídeos de cadeia média poderiam servir como fonte alternativa de energia para o cérebro.
Até o momento, não existem estudos clínicos de qualidade que comprovem que o consumo de óleo de coco previne o Alzheimer, retarda sua progressão ou melhore de forma consistente a função cognitiva em pacientes diagnosticados.
Criar essa expectativa pode levar pessoas e famílias a investirem em soluções sem eficácia comprovada, desviando a atenção de abordagens realmente importantes, como acompanhamento médico, controle de fatores de risco cardiovascular e estímulo cognitivo adequado.
Mito 4: óleo de coco emagrece
O óleo de coco também ganhou fama como aliado do emagrecimento, especialmente em dietas da moda que prometem acelerar o metabolismo ou aumentar a queima de gordura.
Na realidade, o óleo de coco é extremamente calórico, fornecendo cerca de 120 calorias por colher de sopa, e seu consumo excessivo tende a facilitar o ganho de peso, não o contrário, especialmente quando adicionado à dieta sem ajuste do total calórico diário.
Outro ponto importante é que não existe gordura “emagrecedora” quando consumida em excesso. O emagrecimento sustentável depende de um conjunto de fatores que incluem alimentação equilibrada, atividade física regular e hábitos de vida saudáveis, e não de um único alimento isolado.
Mito 5: óleo de coco melhora a imunidade
Outra alegação comum é a de que o óleo de coco fortaleceria o sistema imunológico por conta de suas propriedades antimicrobianas observadas em laboratório.
O que muitos ignoram é que esses efeitos foram demonstrados principalmente em testes in vitro, com concentrações que não correspondem ao consumo alimentar habitual. Ou seja, não há evidências de que ingerir óleo de coco regularmente reduza infecções ou melhore a resposta imunológica em humanos.
A saúde do sistema imunológico está muito mais relacionada a uma alimentação variada, rica em micronutrientes, fibras e compostos bioativos, do que ao consumo isolado de uma gordura específica.
Os riscos do consumo indiscriminado
O principal risco do uso indiscriminado do óleo de coco está no aumento da ingestão de gorduras saturadas, o que pode contribuir para elevação do colesterol LDL, maior inflamação sistêmica e aumento do risco cardiovascular ao longo do tempo.
Além disso, pessoas com histórico de dislipidemia, doenças cardíacas, sobrepeso ou resistência à insulina devem ter ainda mais cuidado, pois o impacto metabólico pode ser mais significativo nesses grupos.
Outro ponto importante é que o consumo frequente de óleo de coco pode substituir fontes de gordura comprovadamente mais saudáveis, como azeite de oliva, castanhas e sementes, empobrecendo a qualidade nutricional da dieta como um todo.
Então o óleo de coco deve ser evitado?
Dizer que o óleo de coco não possui os benefícios que tanto divulgam não significa que ele seja um veneno ou que nunca possa ser utilizado.
O que existe é a recomendação de que ele deve ser encarado como uma gordura saturada que precisa ser consumida com moderação, e não como um suplemento terapêutico ou alimento funcional milagroso.
Seu uso eventual em preparações culinárias específicas é muito diferente de ingeri-lo diariamente em grandes quantidades, especialmente com a expectativa de benefícios que a ciência não confirma.
Dúvidas comuns sobre o tema
Sim. Estudos mostram que o consumo de óleo de coco tende a elevar o colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim. Embora possa ocorrer um leve aumento do HDL, esse efeito não compensa o impacto negativo do aumento do LDL, segundo as diretrizes médicas atuais.
Não. O óleo de coco é altamente calórico e não possui efeito comprovado no emagrecimento. Quando consumido sem controle, pode contribuir para o ganho de peso. A perda de peso depende do equilíbrio calórico e de hábitos de vida consistentes, e não do consumo de um único alimento.
Não. Óleos como o de oliva, canola e girassol possuem maior quantidade de gorduras insaturadas e estão associados a melhores desfechos de saúde. O óleo de coco não oferece vantagens nutricionais que justifiquem sua substituição por esses óleos no dia a dia.
Referências ▼
- Circulation – Dietary Fats and Cardiovascular Disease: A Presidential Advisory From the American Heart Association
- Cereus – Are We Nuts Over Coconuts? Studying the Effects of Coconut Oil on Low-Density Lipoprotein and Cardiovascular Diseases: A Systematic Review
- Circulation – The Effect of Coconut Oil Consumption on Cardiovascular Risk Factors: A Systematic Review and Meta-Analysis of Clinical Trials

