Toda diabetes é igual, não é mesmo?
Esse é um pensamento comum, que se baseia na característica principal da diabetes, que é o aumento severo dos níveis de açúcar no sangue. Mas este é apenas o resultado da doença, e a glicemia alta pode ocorrer por diferentes causas, dependendo do tipo específico de diabetes.
Aquí, falaremos de um tipo grave e não tão comum: a diabetes tipo 1, também conhecida como diabetes infantil ou juvenil. Sua gravidade não se deve apenas ao mecanismo autoimune, mas sim à idade que maioria das pessoas desenvolvem esse tipo de diabetes e ao fato de que ela se torna totalmente dependente da insulina.
O que é diabetes tipo 1?
A diabetes tipo 1 é uma doença autoimune na qual o sistema imunológico ataca as células beta do pâncreas. E como essas células são responsáveis pela produção de insulina, a pessoa perde rapidamente a capacidade de regular os níveis de açúcar no sangue.
O resultado é um quadro intenso, com sintomas que podem se agravar e exigir atendimento emergencial. Além disso, ela costuma aparecer durante a infância e adolescência, o que pode atrasar o diagnóstico, pois nem sempre as crianças conseguem comunicar exatamente o que estão sentindo.
Como a destruição das células beta pancreáticas é praticamente total, os portadores desse tipo de diabetes são insulinodependentes, ou seja, o tratamento é realizado com insulina desde o princípio, diferente da diabetes tipo 2.
Causas da diabetes tipo 1
Ainda não sabemos exatamente o que causa a diabetes tipo 1, mas já sabemos que envolve uma combinação de fatores genéticos e ambientais.
Predisposição genética: Existem certos genes que aumentam o risco de desenvolver a doença, especialmente aqueles relacionados ao sistema HLA (antígeno leucocitário humano). No entanto, ter esses genes não significa que a pessoa definitivamente terá a doença, apenas que ela tem mais chances
O processo autoimune: Uma vez iniciado o processo, o sistema imunológico produz autoanticorpos que atacam as células beta do pâncreas. Essa destruição pode levar meses ou anos até que sintomas apareçam, mas quando surgem, geralmente já foi destruída a maior parte das células produtoras de insulina
Gatilhos ambientais: Em pessoas geneticamente predispostas, alguns fatores do ambiente podem desencadear o processo autoimune. Infecções virais, traumas físicos e emocionais e até a falta de vitamina D estão entre os possíveis gatilhos
Além disso, existem casos nos quais os gatilhos não são identificados, ou não há predisposição genética conhecida.
Principais sintomas
Os sintomas da diabetes tipo 1 aparecem de forma súbita e se intensificam rapidamente, geralmente em questão de dias ou algumas semanas. Isso acontece porque, quando os sintomas se manifestam, a destruição das células beta já é quase completa.
Os quatro sintomas clássicos são:
Poliúria (urinar muito): A criança ou jovem começa a urinar com frequência muito maior que o normal, inclusive acordando várias vezes durante a noite. Em crianças que já não usavam fraldas, pode ocorrer o retorno de xixi na cama
Polidipsia (sede excessiva): Sede intensa e constante, bebendo água em quantidades muito maiores que o habitual, mesmo assim sem conseguir saciar a sede
Polifagia (fome excessiva): Fome constante, comendo mais que o normal e mesmo assim continuando com fome
Perda de peso: Apesar de comer mais, a pessoa perde peso rapidamente e de forma inexplicável. Isso ocorre porque sem insulina, as células não conseguem usar a glicose, e o corpo começa a queimar gordura e músculo para obter energia
Outros sintomas importantes incluem:
Cansaço extremo e fraqueza
Visão embaçada
Irritabilidade e mudanças de humor
Hálito com cheiro adocicado ou de frutas (cetônico)
Náuseas
Infecções frequentes, especialmente de pele e urinária
Cetoacidose diabética: uma emergência médica
Se não diagnosticada e tratada rapidamente, a diabetes tipo 1 pode evoluir para cetoacidose diabética, uma complicação grave que pode ser fatal. Os sintomas incluem:
Náuseas e vômitos intensos
Dor abdominal forte
Respiração rápida
Hálito cetônico muito forte
Confusão mental
Desidratação severa
Perda de consciência
A cetoacidose diabética é uma emergência médica que exige tratamento imediato em hospital.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da diabetes tipo 1 geralmente é feito de forma relativamente rápida devido à intensidade dos sintomas. Combina avaliação clínica com exames laboratoriais.
A presença de glicemia elevada confirma o diagnóstico de diabetes. Os critérios são:
Glicemia aleatória (não necessita jejum): maior que 200 mg/dL
Glicemia de jejum: maior que 126 mg/dL
Na maioria dos casos de diabetes tipo 1, especialmente em crianças, a glicemia está muito elevada (frequentemente acima de 300-400 mg/dL) quando os sintomas aparecem.
Após o diagnóstico inicial, o médico pode também solicitar a dosagem de autoanticorpos para confirmar a diabetes tipo 1, principalmente se existem fatores de risco para desenvolvimento do tipo 2 da doença.
Tratamentos para diabetes tipo 1
A diabetes tipo 1 exige tratamento com insulina desde o diagnóstico, pois sem insulina, a pessoa não sobrevive.
O objetivo do tratamento é manter a glicemia o mais próximo possível do normal para prevenir complicações tanto agudas quanto crônicas.
Insulina rápida e ultrarrápida: Usada antes das refeições
Insulina de ação lenta: Usada para manter os níveis de insulina constantes durante o dia
Existe ainda a possibilidade de uso de uma bomba de insulina, um dispositivo do tamanho de um celular pequeno que fica conectado ao corpo por um cateter e infunde insulina continuamente.
Ela oferece mais flexibilidade e controle mais fino, sendo especialmente útil em crianças pequenas. No entanto, exige treinamento e acompanhamento.
Para manter um bom controle da glicemia, é necessário o monitoramento rigoroso. Isso pode ser feito com glicosímetros, usando pequenas amostras de sangue, ou com monitores contínuos, com um sensor colocado no braço ou abdômen que mede a glicose continuamente.
Riscos e possíveis complicações
A diabetes tipo 1 mal controlada pode levar a complicações graves, tanto agudas quanto crônicas. As complicações agudas mais comuns incluem:
Hipoglicemia (glicose muito baixa): Acontece quando a pessoa toma insulina em excesso, pula refeições ou faz atividades físicas sem os ajustes necessários. Sintomas incluem tremores, suor frio, e confusão mental
Cetoacidose diabética: Uma complicação grave e urgente que ocorre quando a insulina está em falta e o corpo começa a produzir cetonas em excesso
Além disso, existem complicações crônicas, que se desenvolvem ao longo de anos ou décadas de controle inadequado:
Retinopatia diabética: Danos aos pequenos vasos da retina que podem levar à perda de visão
Nefropatia diabética: Danos aos rins que podem progredir para insuficiência renal
Neuropatia diabética: Lesões nos nervos que podem causar perda de sensibilidade, dor ou formigamento, especialmente nos pés
Doença cardiovascular: Pessoas com diabetes tipo 1 têm risco aumentado de problemas cardiovasculares, especialmente se o controle for inadequado por muitos anos
Dúvidas comuns sobre o tema
A diabetes tipo 1 é considerada mais grave, pois é uma doença autoimune e os pacientes são totalmente dependentes de insulina desde o início.
Não existe cura atualmente. A pessoa precisará de insulina por toda a vida. Pesquisas com células-tronco, transplantes e imunoterapia avançam, mas ainda não há tratamento curativo disponível.
A diabetes tipo 1 tem um componente genético, mas não é 100% hereditária. Ou seja, pessoas com histórico familiar de diabetes tipo 1 têm maior risco, mas não há garantia de que a doença se desenvolva.
Referências ▼
- Revista Cubana de Salud Pública – Algunos apuntes sobre la Epidemiología de la diabetes mellitus tipo 1
- Archivos Venezolanos de Puericultura y Pediatría – Diabetes mellitus tipo 1 en pediatría: análisis de la casuística del Hospital Universitario de Gandía, Valencia, España
- JCI insight – β Cell dysfunction exists more than 5 years before type 1 diabetes diagnosis

